Qualquer um que entenda ligeiramente de conflitos do Oriente Médio sabe que Síria e Líbano, os Estados independentes, jamais se bicaram. Sem exposição tão óbvia quanto a oferecida às disputas entre árabes e israelenses, têm como principal motivação para o mútuo estranhamento as reincidentes intervenções sírias nos conflitos libaneses — inauguradas, cada qual, sob o suposto propósito de apaziguar o balanço de forças da região.
No Brasil em que, com o perdão do clichê, turcos, árabes e judeus souberam se misturar desde sua chegada, porém, os vizinhos hostis aprenderam a apertar as mãos. Com empreendimentos diversos, no varejo, na alimentação e mesmo no ramo hospitalar, construíram vínculos antes impensados. E, nesse mesmo espírito, uniram suas comunidades em prestigiados clubes locais, dentre os quais o Sírio-Libanês da Marquês de Olinda, vedete de certos carnavais.
Se não viveu parte dos tempos áureos, com festas e confraternizações, esta mesma que vos escreve tem uma foto tirada nas escadarias do clube ao lado de Angélica, então apresentadora da Manchete, que não a deixa negar o passado curioso. Recorda também, de lembrança e de ouvido, histórias de célebres massagistas, partidas de futebol e de basquete que terminaram pior do que a encomenda e contos extravagantes envolvendo o restaurante do Califa.
Entre concursos de dança, aniversários e bailes, o Sírio sobrevivia da camaradagem do bairro, servindo de cenário para brincadeiras, brigas e amizades que duravam até a ressaca seguinte. Diante do amadorismo administrativo e da própria perda de popularidade dos clubes de classe média em meados da década de 1990, foi abandonado à própria sorte e decaindo em seu charme. O cheiro de cloro que trazia à rua ficou solitário, desacompanhado do suor dos garotos e da cerveja dos mais velhos. Ninguém mais comia o famoso “misto sírio” e a maior parte só aparecia em churrascos de recordação ou em eventos externos (ensaios de escola de samba inclusos).
Em algum momento de 2005 ou de 2006, a notícia que todos esperavam enfim se confirmou: os sírios e os libaneses de Botafogo tornariam sua união inacreditável um mero causo regional. Cobertos de dívidas, cederam o terreno em troca da garantia de uma sede na Zona Oeste e da transferência de alguns sócios para o Fluminense Football Club. Conforme o início da demolição hoje me permitiu ver, em poucos meses teremos um novo edifício em seu lugar, com seus alardeados apartamentos de três quartos e suas inevitáveis áreas de lazer. Mais um desses fantasmas, milagres de construtores. Mais uma marcação em concreto do fim da nossa inocência.
Em tempo: o filme argentino “Luna de Avellaneda” tem diversos pontos de semelhança com esta narrativa nostálgica.